Não adianta borrifar as folhas. Precisamos regar a raiz”, afirma professor Barros sobre o processo criativo e inovação

Não adianta borrifar as folhas. Precisamos regar a raiz”, afirma professor Barros sobre o processo criativo e inovação

“Criatividade é importante. Inovação é importante. Pense fora da caixa. Inove para ser competitivo. Não vou ficar repetindo essas coisas. Isso nós estamos cansados de saber e é muito raso”, afirmou o professor do ISAE e do Programa de Inovação do Cooperativismo Paranaense, Rodrigo de Barros, ao iniciar sua participação na 25ª Live para agentes das cooperativas paranaenses. Promovido pelo Sistema Ocepar, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop/PR), o evento ocorreu na tarde da última sexta-feira (04/09) e foi aberto pelo coordenador de Desenvolvimento Cooperativo, Leandro Macioski.

Reflexão – Com a proposta de promover uma reflexão mais aprofundada sobre o tema criatividade e inovação, Barros fez a analogia com uma planta. “Não adianta borrifar as folhas. Precisamos regar a raiz”, afirmou, enfatizando a importância de tratar a questão por sua essência. Para ele, “a raiz da inovação é trabalhar o ser humano criativo”. “Como eu estudo a capacidade inovativa e a capacidade criativa, eu darei um foco muito importante na questão humana da inovação,” frisou.

A criatividade morreu – O professor parte do pressuposto que a criatividade morreu. “Se a inovação é fruto do ser humano criativo, eu preciso entender o que aconteceu com a criatividade das pessoas. Senhores do júri, a criatividade morreu e nós temos três culpados”, disse, como se estivesse anunciando a sentença num tribunal. Barros destacou o resultado de um estudo encomendado pela Nasa, desenvolvido pelo psicólogo George Land, em conjunto com outros pesquisadores da área, com aproximadamente 280 mil pessoas durante anos. O levamento apontou que 98% das crianças de zero a cinco anos demonstraram alto grau de criatividade, e, aos poucos, esse índice foi reduzindo: em 30% nas crianças de 10 anos; em 12% entre os jovens de 15 anos, chegando a apenas 2% entre os adultos considerados altamente criativos. “Aos cinco anos de idade somos muito criativos, fantasiosos, fazemos leituras originais e autênticas do mundo, e, na medida em que a gente cresce, vamos ficando menos criativo. O que tem em comum entre as pessoas com diferentes idades que justifique essa queda tão absurda? A escola”, afirmou.

Sistema educacional – Segundo Barros, o sistema educacional é um dos responsáveis pela perda criativa, por tratar indivíduos com personalidades diferentes de um modo padronizado. “E isso não é achismo da minha parte. George Land e Ken Robinson, recém-falecido pesquisador de altíssimo nível sobre criatividade, autor do livro ‘Escolas criativas’, autor do TED mais assistido da história ‘Por que perdemos a criatividade’, falam exatamente isso. A escola, por ter provas, por possuir um sistema educacional que nos uniformiza, nos trata como iguais, no sentido de personalidade e isso tudo, vai fazendo com que nos tornemos iguais, padronizados. E isso é um instrumento de total perda de criatividade”, disse.

Máquina de desempenho – De acordo com o professor, na fase adulta, as pessoas enfrentam o outro culpado por tornar as pessoas menos criativas: a máquina de desempenho. “Toda empresa, cooperativa ou corporação que opera visando resultados é uma máquina de desempenho. Ela é constituída para dar resultado. Porém, essa máquina de desempenho nos limita a criar, por quê? A natureza de uma máquina de desempenho é a previsibilidade, atingir resultados previsíveis. É a natureza da criatividade e da inovação é a incerteza, é não saber direito o que vai acontecer”, explicou. Dessa forma, segundo Barros, esse conflito e a constante a pressão existente no ambiente corporativo para que os funcionários inovem representam um fator limitante à criação.

Foco – “Aí que eu digo, você não deve focar em inovar. É necessário desviar um pouco a visão desta questão porque o excesso de pressão nos deixa embotados pois bombardeia o corpo com cortisol, que é o hormônio da ansiedade, da preocupação extrema. E isso em demasia nos trava”, ressaltou. Barros lembrou de um trabalho feito pelo psicólogo húngaro Mihaly Csikszentmihalyi, que cunhou o termo “fluxo da criatividade”. “Em pesquisa cognitiva comportamental da área de criatividade, ele colocou que nós entramos no fluxo criativo quando temos um equilíbrio entre quantidade de desafios no dia a dia e a minha capacidade em temos de habilidade de saber lidar com isso”, afirmou. “Por isso eu afirmo que a criatividade é o xis da questão, não a inovação. Temos que entender que a criatividade foi perdida e a inovação é fruto do ser humano criativo. Então, a gente precisa cuidar da raiz”, reforçou.

Conectividade – Ao apresentar o terceiro culpado pela perda da criatividade, o excesso de conectividade, Barros lembrou que a humanidade sempre inovou, desde a descoberta do fogo, da roda, da eletricidade, da arma e ao expandir territórios, por exemplo. “Toda essa busca desenfreada pelo novo é da natureza do ser humano, é a sua inquietação. Isso tem sempre um lado positivo e um negativo”, frisou. Da mesma forma, hoje temos a tecnologia. “Ela é fantástica. Graças à conectividade, estamos conseguindo superar alguns desafios impostos por essa pandemia. Mas ela também cobra o seu preço. O fato de estarmos o tempo todo conectados é um gatilho absurdo de ansiedade”, afirmou o professor, destacando que a dependência pela tecnologia tem deixado as pessoas exaustas e doentes, pois, por outro lado, elas também não têm desfrutado de um descanso genuíno e do ócio criativo, fatores importantes para desenvolver e manter a mente mais criativa. “O fato é que estamos vivendo uma era histórica, em termos políticos e tecnológicos. E estamos no olho do furacão, vendo as coisas mudarem absurdamente e não podemos fechar o nosso olho para a raiz da coisa. Vamos entender o que está acontecendo com a sociedade e pensarmos em soluções mais humanas, mais sustentáveis, mais justas, para que, por meio da criatividade, possamos dar mais qualidade de vida às pessoas”, acrescentou.

Confiança criativa – Depois de apresentar os três culpados pela perda da criatividade – o sistema educacional, a máquina de desempenho e o excesso de conectividade –, o professor afirmou que é possível resgatá-la por meio da chamada confiança criativa. “É preciso ter condições de exercer a minha autenticidade, a minha originalidade, e a coragem para expor o que eu penso. E isso está totalmente ligado ao nosso cérebro criativo. Eu vou resgatar essa criatividade perdida quando eu permitir que o meu cérebro imagine, fantasie, invente, inove, tenha ideias, seja alimentado por conhecimento, faça leituras, tudo isso vai propiciar um cenário que vai reconfigurar algumas coisas e torná-lo mais criativo. A criatividade adormeceu? Não fiquem tristes porque nós podemos exercitá-la a tal ponto que ela volte. É uma espécie de ginástica cerebral. A criatividade é fisiológica, então, se eu mexo sensorialmente nesse mecanismo, eu posso reconfigurar a criatividade”, disse.

Plano – Para as empresas que querem tornar suas equipes mais criativas e inovadoras, ele sugere a implementação de iniciativas que trabalhem cinco habilidades que podem desenvolver a confiança criativa: pensamento associativo, questionamento, observação, networking e experimentação. “Quando eu exercito meu pensamento associativo, eu estou exercitando a minha capacidade de pensar de maneira divergente, pensar de maneira convergente. Quando eu exercito a minha habilidade de questionar, eu estou gerando possibilidades do meu cérebro pensar: e se fosse assim, e se fosse assado e se fizéssemos assim? Isso gera novos caminhos neurais e criatividade tem a ver com isso. Quando eu paro e observo as coisas, eu alimento a minha imaginação e a minha fantasia. Quando eu cultivo o meu networking, eu trago para minha vida pessoas com bagagens diferentes e abro literalmente as portas da percepção para entender coisas diferentes. Então, criar é conectar. Ser criativo não é reinventar a roda. Ser criativo é estar tão ligado, observando as coisas, que você as conecta e gera algo diferente. Isso é a essência do pensamento criativo”, acrescentou.

Mais – Barros destacou ainda a importância da empatia no processo criativo. “É a base do design thinking e do pensamento criativo. Eu sentir as dores do outro alimenta a minha mente e o meu cérebro porque faz com que eu queira amenizá-la e isso tem a ver com criatividade”. E, também, o estímulo sensorial do organismo. “A criatividade é uma combinação de estímulos do sistema nervoso periférico, que manda estímulos para o sistema nervoso central, responsável por coordenar isso dentro do nosso organismo. São milhões de informações, gerando sinapses e resinapses. Para que a criatividade aconteça, nós precisamos estimular essa estrutura. Tenho que provocar experiências nas pessoas, para que elas reconfigurem as suas cabeças”, frisou.

Fruto – “A inovação é fruto do ser humano criativo. Nessa live, eu apontei três culpados da perda criativa e, se nós temos culpados tão claros e percebemos em nós mesmos que a criatividade adormeceu por causa deles, precisamos falar mais sobre isso pois, assim, aumentamos o potencial e as chances de inovação. Não adianta borrifar as folhas. Precisamos regar a raiz da planta. Criatividade é fruto de um ser humano criativo”, finalizou Barros.

Fonte: Informe Paraná Cooperativo

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